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Do ralo ao rio

Foi publicado aqui no Ambientebrasil um artigo detalhando as etapas do tratamento de água até chegar nas residências, intitulado de “Do rio a torneira”. Bom… nada mais justo que concluir este ciclo do saneamento básico, agora focando no tratamento de efluentes, ou seja, as águas escoadas após a utilização nas casas.

Seguindo essa linha, você sabe o que ocorre com a água depois que a utilizamos nas nossas atividades diárias, seja após o banho, lavando alimentos na torneira, lavando roupa, é necessário algum tratamento específico? Ou seria apenas um direcionamento para o rio mais próximo?

Explicaremos aqui neste artigo todo o passo a passo da rede de tratamento de água e efluentes, parte esta, de extrema importância para a manutenção da saúde da população e melhoria na qualidade de vida.

O importante trabalho subterrâneo O tratamento de efluentes gerados nas casas e a implantação do saneamento básico nas cidades segue toda uma estruturação de redes coletoras, tubulações, caixas de separação que são planejadas principalmente de acordo com o objetivo de utilização da construção, a quantidade de pessoas presentes e tipos de efluentes que serão lançados, dentro outros requisitos.

Apesar de serem estruturados para que fiquem prioritariamente no subsolo, fora da vista, o saneamento está listado dentro das necessidades básicas para da vida humana, sendo assegurado inclusive pela Constituição brasileira para manutenção da qualidade de vida da população.

Entretanto, segundo pesquisa realizada pelo Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS) mostram que aproximadamente 52% da população brasileira não tem acesso à coleta de esgoto, expondo a saúde pública, devido a vinculação de doenças como cólera, meningite, hepetites A e B, bem como, impactando ao meio ambiente com contaminação do solo e rios, por efluentes não tratados.

Residência ao lado de esgoto não tratado. Fonte: EOS Além disto, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a cada R$ 1,00 gasto com saneamento, são economizados cerca de R$4,00 na área da saúde pública, por conta da prevenção destas doenças vinculativas com a falta de tratamento.

No aspecto ambiental, a redução em termos econômicos ocorre devido a diminuição da ocorrência de contaminação dos rios por metais pesados, e redução da exposição de pessoas quando em contato com a água contaminada.

Como funciona o ciclo do esgoto? A importância do saneamento como necessidade básica já foi descrita acima, agora, no intuito de prover maior conhecimento e entendimento sobre como este trabalho é feito, explicaremos a seguir o ciclo do esgoto.

Primeiramente, a rede de esgotamento varia de acordo com o porte do local, por exemplo, em casos onde não há rede pública próxima e há apenas residências de pequeno porte, pode ser pertinente a utilização de esgotamentos menores, conforme figura e detalhamento abaixo.

Rede de Esgotamento Individual. Fonte: Ecoeficientes 1) Responsabilidade:O sistema de tratamento individual é obrigatório quando não há sistema público de esgoto, o sistema do tipo fossa-filtro-sumidouro é comumente utilizado;

2) Caixa de Gordura: A caixa de gordura é necessária em todos os tipos de sistemas de tratamento, para evitar acúmulo de gordura (advindos de sabonete, sabão, por exemplo) e obstrução das tubulações;

3) Ligações de passagem;

4) Fossa séptica: local onde ocorre a sedimentação dos sólidos, formando um lodo, que deve ser limpo através de um caminhão limpa-fossa periodicamente;

5) Filtro anaeróbio: utilizado para tratamento biológico do sistema, formado por britas compostas de micro-organismos que decompõe a matéria orgânica, podendo ser colocado após o filtro um clorador para remover organismos que possam causar doenças;

6) Sumidouro: Local para onde o esgoto, já tratado, vai para ser infiltrado no solo, ocorrendo através de furos na parede e no fundo;

7) Zona de raízes: Pode-se optar também, por utilizar as raízes de plantas como forma de filtro, assim, depois de passar pela fossa, o esgoto segue por um leito filtrante onde é feito o plantio de algumas plantas, que são adaptadas a condições de solo com pouca ou muita água; absorvendo a matéria orgânica e os nutrientes.

Complementarmente, em locais com edificações de maior porte e com acesso a rede de esgotamento para a rede pública, há algumas diferenças e observações detalhadas a seguir; ressaltando principalmente, que a estrutura de esgotamento se inicia dentro das residências e depois é encaminhada ao serviço de saneamento local, existindo responsabilidades específicas para o usuário e a concessionária que fornece o serviço.

Rede de esgotamento, responsabilidades. Fonte: Ecoeficientes 1 e 2) Responsabilidade: O usuário é responsável pelas instalações prediais de esgoto dentro do terreno;

3) Ligações de passagem;

4) Caixa de gordura;

5) Ligação entre a rede de esgoto da residência com a concessionária: Necessário a ligação das caixas de gordura, tubulações e válvula de retenção para esgoto com a rede coletora de esgoto;

6) Descrição do local de medição das tarifas de esgoto: Existem tarifas de esgoto, similar à forma como são pagas as contas do serviço de abastecimento de água;

7) Ligação equivocada da rede de esgoto com a pluvial: Esquema ilustrando uma das principais irregularidades que ocorrem, que é a ligação do sistema de esgoto junto a água da chuva, podendo sobrecarregar a rede coletora de esgoto, extravasando para fora do sistema;

8) Ligação a empresa responsável pelo serviço de saneamento local.

Após este tratamento na residência e com a devida interligação da rede coletora de esgoto, a empresa que gerencia o serviço de saneamento local, inicia efetivamente o tratamento do esgoto gerado através das Estações de Tratamento de Esgoto (ETE).

Em termos conceituais, o esgoto é composto basicamente de 99,9% de água e 0,1% de sólidos, sendo os principais parâmetros a serem removidos para o adequado tratamento, a matéria orgânica, o nitrogênio, o fósforo e os sólidos, o que irão garantir que o efluente seja devidamente tratado.

A seguir são ilustrados na figura e descritos cada etapa do tratamento do esgoto.

Funcionamento do esgotamento sanitário. Fonte: Arte CN Como observado nesta figura, existem alguns passos principais no tratamento do esgoto sanitário, estruturados de forma a possibilitar que este fluido ganhe novamente uma utilidade, seja para retorno ao próprio corpo hídrico, seja para fins de reaproveitamento; conforme descrito abaixo.

1) Rede coletora: Rede que possui interação do usuário e da responsável pelo tratamento do esgoto, para o encaminhamento do efluente para tratamento;

2) Rede Elevatória: Responsável por bombear o esgoto para a estação de tratamento; a qual separa o esgoto em partes sólidas e líquidas;

3) Pré Tratamento: Composto basicamente de grades com diferentes espessuras que retém os materiais sólidos que chegam na estação de tratamento, bem como caixas para reter areia que podem danificar os equipamentos da ETE;

4) Tratamento Biológico: Responsável pelo tratamento primário, com foco no tratamento biológico;

5) Decantadores Primários e Secundários: é uma forma de separar determinadas misturas, que possuem densidades diferentes, e por isso se separam, com o mais denso descendo ao fundo por gravidade;

Conceito de decantação. Fonte: instagr4m.com 6) Geração de Lodo: A parte sólida se transforma em lodo, que atualmente podem possuir outras utilizações, como fertilizante ou envio diretamente ao aterro sanitário, para destinação final;

7) Desinfecção: Tratamento da parte líquida, focado a remoção de patógenos;

8) Retorno ao Rio: A parte líquida tratada é devolvida ao rio.

Todos estes procedimentos, possibilitam que a água retorne a condições adequadas, retirando os sólidos, os micro-organismos e parâmetros químicos danosos a saúde e ao meio ambiente, e assim concluindo o ciclo do esgoto.

Estas etapas podem ser divididas também em grupos maiores de Tratamento Preliminar, com foco na remoção de sólidos grosseiros e de areia, o Tratamento Secundário, com foco na remoção da matéria orgânica e dos sólidos em suspensão e por fim, o Tratamento Terciário, voltado a remoção de patógenos.

Antes e depois do tratamento de efluente. Fonte: EOS Vale-se ressaltar também, que todos estes procedimentos de tratamento descritos, são embasados por uma série de legislações específicas, em especial a Resolução Conama nº 357/2005 e a Resolução Conama nº 430/2011, que determina as condições mínimas de qualidade do efluente após o tratamento. Além disto, cada estado brasileiro possui normas particulares quanto a estes parâmetros de qualidade de saída do efluente.

Por fim, em termos de manutenção e correções na rede de esgoto comumente necessárias pelas concessionárias, são voltadas principalmente para a ligação incorreta da água da chuva com a rede coletora, sobrecarregando o sistema, a danificação de tubulações que levam o esgoto até a Estação de tratamento de esgoto e a ligação incorreta de esgoto na rede de drenagem pluvial.

Todas estas metodologias e etapas aqui apresentadas, são definidas para que este importante ciclo, o do esgoto, funcione efetivamente, garantindo a melhoria nas condições básicas de saúde a população e reduzindo o impacto ao meio ambiente, para que um dia, o percentual retratado no início do artigo onde 52% da população brasileira não possui acesso ao saneamento básico, de fato se transforme.

Maria Beatriz Ayello Leite Redação Ambientebrasil**


Publicado em 07 de agosto, 2019.